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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Mestres de Ofício - Silêncio Eloquente

Numa feira de produtos artesanais fui abordado por uma artesã, que ao me ouvir perguntar pela engenharia das tramas de alguns modelos em alguns trabalhos expostos, contou-me entusiasmada sobre a descoberta daquele tipo de ponto de crochê, de origem portuguesa, aplicado nas roupas da moda no tempo da monarquia no Brasil.

Minha curiosidade obrigou-me a ouvir sobre um assunto que só conhecia porque minha mãe e minha mulher são praticantes daquela arte. Foi agradável ouvir aquela exposição.

O sentido daquela história ia muito além do rosto desprovido de vaidade, angelical e brilhante daquela artesã, sobre cada ponto que descrevia. Representava uma doação de gestos físicos, armada de paciência e amor, tentando resgatar artes para contribuir com o renascimento da cultura de um modelo de crochê no seu país.

A peça em crochê apresentava um impressionante volteio dos fios de lã para o ponto alto, que ao passar pelo mágico movimento do dedo polegar, gerava os pontos baixos, curtos, elegantes e distantes entre si, mas ligados por uma espécie de coluna vertebral, solitária na sua função de mestre de relacionamento, ligando as extremidades, fazendo uma pinça com os demais e a conseqüente ligação, formando uma estola artesanal de indescritível beleza.

Para que eu entendesse o mecanismo, ela pediu minha atenção para as funções do dedo polegar, que sem ele, em nossas atividades comuns, inúmeras coisas não poderiam ser feitas, dizia.

Entre elas não seríamos capazes de pegar um copo de água para beber, assim como, fazer o sinal de positivo ou negativo.

Além do mais, ele tem a extraordinária propriedade de ser o único que pode assinar pelo analfabeto. O polegar é o mais forte dos dedos. Sem ele, seríamos incapazes de pegar uma agulha.

É num lance praticamente invisível do dedo polegar, que o giro das agulhas do crochê, faz o dedo indicador ter a função insubstituível de lançar o emaranhado de lã organizado no caos, sobre o grampo, uma peça de sustentação dos fios, que foi aperfeiçoada para o uso específico de viabilizar o renascimento daquele modelo de crochê do tempo da monarquia, por iniciativa e criatividade da artesã, graças a uma fotografia de um quadro da princesa Izabel que revelava aquele adereço nos seus trajes.

Colocados em outro plano, os fios crochetados surgem dos encaixes e das dobras como parceiros que se formam num conjunto de movimentos corporais, impondo autoridade através da beleza do emaranhado de cores, que ao completar sua metamorfose surge como adorno complementar de roupas femininas que primam pela elegância e bom gosto, se materializado de um verdadeiro ato de amor.

O dedo indicador é que nos mostra os rumos que devemos seguir. É o nosso socorro quando nos orienta nas entradas e saídas. É o único que só dói quando bate. Além de servir para resgatar artes seculares, é o maior colaborador do polegar na arte do crochê, é o dono da verdade, pois com ele é que pedimos e impomos silêncio.

Sem ele nossa autoridade se esvai, mas também pode nos transformar em mal educados, arrogantes e estúpidos quando o colocamos abruptamente em riste.

O dedo médio não se desvia do nível das articulações, pois responde pela beleza das mãos. É sócio do indicador para o folheamento de livros, revistas e suporte para a escrita. Presta ajuda a todos os seus parceiros, por isso merece o carinhoso tratamento de: pai de todos.

Já o anular é o nosso dedo nobre. Nele é que são colocadas as honrarias. Nas formaturas, ele recebe o anel de graduação. No casamento se realça recebendo as alianças e as bênçãos.

O dedo menor, também conhecido por minguinho, o quinto da nossa mão não deixa por menos o seu valor, pois contribui para a harmonia do conjunto. Houve época em que ele quis sair do sério. Deixou crescer a unha e por sua vaidade exacerbada foi punido. Como castigo tem a missão de limpar a sujeira da unha dos outros dedos. Foi condenado a tirar cera dos ouvidos, limpar as inoportunas badalhocas grudadas no nariz e coçar os mais recônditos lugares do nosso corpo.

Mesmo assim não se humilha, não admite discriminações, e na medida do possível se nivela aos demais, pois é o único que permite que nossas mãos alcancem as teclas dos extremos dos instrumentos onde as notas geram peças musicais de inestimável valor e ternura.

É de se perguntar se alguma vez demos à devida importância ao conjunto dos dedos, pois eles é que formam as nossas mãos.

Com nossas mãos tudo fazemos, nos manifestamos, escrevemos, fazemos crochê, fazemos cirurgia, acariciamos e nos identificamos, mas em se tratando de dedos, tive que me socorrer da sua fisiologia e sendo assim não poderia deixar de fora os estereótipos muito comuns em autistas.

Quando encontrei aquela iluminada artesã, captei que das suas mãos, os seus dedos emanavam curvas de energia boa, e que cada ponto do seu crochê era uma união amorosa de um gesto motor-perceptivo-intuitivo.

Os estereótipos, não são gestos mecânicos ou impulsos elétricos das mãos ou dos dedos que devem ser tratados de maneira isolada, fio a fio. Na nossa ousadia pensamos que os dedos são provas de que tanto um autista como uma artesã crocheteira, podem expressar a compreensão de que a sua serventia é uma divina expressão corporal.

São expressões silenciosamente eloquentes, reveladas através de um emaranhado de fios da arte de fazer crochê, que estes movimentos dos dedos, mestres de ofício, autistas ou não, também podem fazer a luz brilhar, recebendo como paga apenas prazer puro pela aplicação do sentimento de amoroso dever cumprido.

Vivências Autísticas

Meu filho caçula que confirmou ser o companheiro que o nosso autista precisava, mesmo não sabendo, nem onde, nem quando - chegou-se a mim carinhosamente e perguntou: pai sabe o que é Dada, ou Dadaísmo?

Encurralado por não saber, não tive tempo nem de por em prática uma estratégia de solução para a resposta, quando ele começou a dissertar:

Dada, ou Dadaísmo, pai, foi um movimento antiarte surgido em 1915 na Suíça, e que fez do deboche uma atitude filosófica, onde a proposta era a construção de algo. A negação de qualquer funcionalismo que a arte do convencional, dando sentido geral a tudo. Satirizando os artistas demonstravam uma revolta cultural e intelectual política.

As produções do Dadaísmo receberam a denominação de "ready-made" (arte com objeto já pronto), nas quais se destacaram vários artistas.

Meu bom Jesus! Não é possível, eu pensava, sentindo meus olhos arregalados. Agora tenho um filho versado em artes. Ou antiartes?

Entre a minha ignorância e o saber do meu filho eu estava chocado. Levei um verdadeiro baile de conhecimentos sobre Dada ou Dadaísmo.

Já ele, com uma arrogância de guerreiro infante orgulhoso por ter vencido uma batalha, observando o inimigo imobilizado com a ponta da lança no pescoço, voltou-se à porta e foi saindo devagar me deixando envergonhado, sem saída.

Ao sair, ainda brandiu sua língua ferina de saber falando: sabe pai, esse negócio de Dada ou Dadaísmo, é “pura arte autística”. Você também pode ver lá no museu que a escola nos levou.

Ops!

- Porque você diz que o que você viu lá é “pura arte autística filho?”.

- Ora pai, tem algumas pinturas expostas lá no museu, que são parecidas com as pinturas e desenhos do Dani.

- Têm algumas gravuras feitas com giz de cera e colagens que são praticamente iguais as que ele pinta e peças de artesanatos que faz.

Pasmo, pensei devagarzinho: bem feito, que lição merecida!

Como ninguém é obrigado a saber tudo fui até o museu, em busca de conhecimentos sobre o Dadaísmo.

Era uma exposição de colagens, fotos, pinturas, desenhos, gravuras, esculturas e publicações que ilustravam o desenvolvimento e o amadurecimento do Dadaísmo e do Surrealismo no século XX.

Entre os mais notáveis surrealistas estava Joan Miró, Joseph Cornell, Meret Oppenheim, Wifredo Lam, Remédios Varo e Yves Tanguy. Francisco Goya, Willian Blake e Paul Gauguin, entre outros, que se constituiriam nos precursores das vertentes que desaguaram na arte contemporânea.

Você que está me concedendo o amor da sua leitura, pode imaginar como eu estava me sentindo no meio daquelas obras de artistas dos dois movimentos, e que a estranha coincidência oferecia uma excepcional abrangência como registro e comprovação de teses autísticas que defendo, começando justamente na minha casa conversando com meu filho caçula...

Surpresa indescritível!

O movimento do Surrealismo procura estimular a imaginação, expandir os limites da consciência, absorver o inconsciente e o reino psicológico do irracional como o que se revela em alguns sonhos.

Os surrealistas encontraram exemplos de impulsos psicológicos do maravilhoso e do sobrenatural, em pinturas fantásticas dos séculos anteriores.

Ver e entender Dadaísmo e Surrealismo significa entrar no mistério da arte em que, pela primeira vez, a questão racional e conceitual sobrepuja a habilidade física e formal.

Ambos tecem uma filosofia própria e um estilo de vida especial para os seus membros.

Em cada desenho, traço, colagem, foto, pintura, gravura, escultura que eu vi na exposição, vislumbrava um trabalho do meu filho autista.

As artes daqueles artistas são chamadas de dadaístas e surrealistas.

A diferença ou semelhança do estilo de trabalho das artes do meu filho é que são chamadas de coisas de autista.

Saí do museu com as maçãs do rosto assadas, de tanto esfregar o lenço enxugando lágrimas geradas por forte emoção e pelo extraordinário encontro com imagens, que um dia eu julgara serem produtos de marcas psicológicas perturbadoras do meu filho.

A outra grande emoção também foi descobrir que o meu filho caçula distinguia e sabia do valor consciencial do Autismo, mesmo com o tema jamais ter sido discutido com ele, além do contágio pelas atitudes do irmão ser portador da síndrome.

Tenho uma amiga na Comunidade Autista do Brasil, que fez pós-graduação em Arteterapia por que, como artista plástica, sabe do poderoso instrumento pedagógico que é a arte.

Ela tem um neto autista. Ela é um destes espíritos missionários que eu chamo de “mãe excepcional”.

Ela entende arte como um elemento importante para desenvolvimento da autoestima e da criatividade, ambos os elementos primordiais para uma vida... Feliz!

Ela sente que os autistas precisam entender regras sociais sim.

Precisam aprender os conteúdos pedagógicos da escola sim (e as atividades artísticas também podem ser preciosas auxiliares nesses aprendizados), mas, mais importante ainda: precisam aceitar a si próprios, e precisam ser estimulados a serem criativos.

Por que os autistas precisam ser ensinados a serem felizes, afirma!

Pensamos que a arte dos autistas complementa nossa orientação, pois é sugestivo e em sua maioria é de conteúdo bonito, exigente, inovador, solidário e afetivo.

É extraordinário como o autista faz bem essa conexão entre arte, reflexão, produção textual, sensibilidade, inserção, utopia...

A beleza das artes dadaísticas carregadas de influências, ressurgem um século depois de acontecerem, nas artes autísticas que nossos filhos pintam, desenham e esculpem, com ares impressionistas, trazidos das vanguardas surrealistas.

Essa história é um alerta para filtrarmos o que enviamos para nossa mente e perguntar se ela não distingue o real da fantasia, o certo do errado, ou simplesmente grava e cumpre o que lhe enviam como é convencionado para os autistas?

Observem os "artistas" que vocês têm em casa disfarçados de autistas.

Seriam surrealistas ou dadaístas?

Seriam autistas aqueles artistas?

Discriminação e Preconceito

Preconceito é a idéia.

Discriminação é a idéia colocada em "prática".

Um exemplo: em algum momento você pode não gostar de uma pessoa com determinada característica, feia ou bonita, bizarra ou estigmatizada, esse é um preconceito.

A partir do momento que você passa a insultá-los ou qualquer outro tipo de atitude pejorativa, é a discriminação.

Aprendemos que o preconceito leva à discriminação, quando deficientes da mente, como os autistas, são considerados inferiores e excluídos por aqueles que se consideram “melhores” como acontece em divulgações por jornalistas, principalmente por autoridades e políticos midiáticos.

O preconceito e a discriminação variam pela maneira com que cada cronista, colunista, apresentador de rádio ou televisão se expressa e, principalmente quando exterioriza o desprezo por determinados grupos portadores de alguma deficiência, da mente ou não, encontrado em determinada situação.

Discriminação é um conceito mais amplo e dinâmico do que o preconceito.

A discriminação pode ser provocada por indivíduos e por instituições, enquanto que o preconceito, só pelo indivíduo.

A imprensa, sem generalizar é claro, principalmente a televisão que precisa manter a sanha comercial mascarada de imparcialidade, não se preocupa com o conhecimento da causa que leva a reportar.

Um jornalista, em nome da ética profissional, muitas vezes pressionado pelo manual de redação e ainda o fantasma do desemprego, embora bem intencionado, acaba cometendo equívocos lamentáveis por falta de conhecimento, partindo do princípio de que a sua fictícia missão de bem informar, o impede pelo menos de saber o significado do que está falando.

Até onde a internet atingiu ainda se fala da Suzan Boyle, a solteirona escocesa de 47 anos, desempregada, desleixada e desmazelada, que morava sozinha com seu gato e mais, que nunca teria sido beijada, tornando-se um recorde de audiência indireto do canal de televisão que a revelou, no mundo inteiro.

Como assisti ao vídeo várias vezes, observei que ela ao responder sobre sua idade, disse também que tinha alguma coisa a mais naquele corpo, e balançou, pois não chegou a rebolar, provocando o espanto inicial aos seus julgadores e o início da avassaladora onda de repercussão de audiência mundial.

O exercício de pensamento que fiz a respeito sobre o que Suzan tinha a mais no corpo importa a mim, mas questiono o modo como o mundo que leio e vejo revelou e continua debatendo até o esgotamento, seu pensamento a respeito do seu biótipo e perfil, julgando aparências.

As discussões de todos os tipos, até onde acompanhei, tiveram como principais comentários sobre a caloura escocesa, já como vitima de preconceito, idade e aparência, os seus estereótipos, até com carimbo de alguns jornalistas e comentaristas bem intencionados exemplificando que nunca devemos julgar um livro pela capa.

Julgamentos rápidos são muito perigosos. Suzan diz que “não há nada que se possa fazer a respeito, é o modo como as pessoas são e como pensam”.

A Psicologia diz que os “estereótipos são vistos como “um mecanismo necessário para entendimento da informação".

Por uma inexplicável falta de conhecimento, como é o que acontece especificamente com o “autista”, que em nome da cultura do “achismo” algumas pessoas públicas, da imprensa e principalmente no meio político, por achar a palavra incomum, sem ao menos buscar a realidade do que é, falam, rotulam e citam pejorativamente provocando ferimentos difíceis de cicatrizar em quem nada tem a ver com a sua desinformação.

Rotular qualquer pessoa, não importa quem, representa ignorância, é um caso de covardia e crueldade.

Devemos aprender levar espiritualidade para nossa vida, antes que modismos descartáveis eliminem até os conceitos de família.

Barack Obama contrariou os estereótipos negativos a respeito dos negros, mas algumas pessoas contrárias a qualquer tipo de inclusão social, já estão criando um subtipo de negros - profissionais negros - em vez de contestar o estereótipo geral, neutralizando noções preconcebidas como fizeram com caloura Suzan Boyle.

“A deficiência, não, faz parte da pessoa” porque "se uma pessoa é bonita ou simpática, as outras riem das piadas dela, e interagem com ela, de uma forma que facilita a interação social". "Se uma pessoa não é atraente, é mais difícil conseguir todas estas coisas porque as outras pessoas não a procuram".

A caloura já passou a categoria de profissional. Outros discriminados por situações parecidas foram extintos do meio artístico.

Agora as preocupações do mundo se voltam para a influenza H1N1, mais conhecida como "gripe suína", quem em princípio, no Brasil seus efeitos já prolongaram período das férias escolares de julho em mais 15 dias, por culpa do inverno.

O porco que nada tem a ver com resfriado ou gripe, em muitos países está deixando de ser alimento.

Está sendo discriminado, banido ou morto.

É preconceito.

Retrospectivas Atuais do Autismo

Em 1985, li o livro: Década de 80 – Autismo – Uma atualização para os que atuam na área: do especialista aos pais, escrito pelo especialista em psiquiatria infantil e do adolescente Ernest Christian Gauderer.

Se bem me lembro, na época foi o primeiro livro sobre o tema, escrito por um brasileiro.

Eu já reclamava muito da falta desse tipo de literatura, pois no Brasil tinha só uma meia dúzia de autores estrangeiros traduzidos e como já tínhamos uns seis anos na batalha contra a então definição resumida do Autismo, pela Society for Autistic Children dos EUA em 1978, três anos depois do nascimento do meu filho quando ele fora diagnosticado autista por uma corajosa psicóloga, devidamente confirmado pela psiquiatria.

O livro foi de grande valia, pois pouco ou quase nada existia a respeito do autismo, com exceção das publicações estrangeiras

Em 1993, novamente o doutor Gauderer, publicou mais um livro: Autismo e Outros Atrasos do Desenvolvimento, no qual reuniu artigos de especialistas com o objetivo de informar sobre esse distúrbio no desenvolvimento, atualizando profissionais de saúde e educação, proporcionando um tratamento mais eficaz e atual a crianças, adolescentes e adultos autistas. Tanto o especialista quanto o leigo que desejassem se informar sobre o assunto puderam se beneficiar com esse trabalho.

Não combinamos nada, mas neste mesmo ano eu publiquei o meu livro, Vida de Autista – Uma saga real e vitoriosa contra o desconhecido, mesmo porque o doutor Gauderer era um psiquiatra especialista em autismo, e eu, apenas pai de autista que obtivera vitórias altamente significativas contra a síndrome.

“Quanto maior a nossa ignorância profissional, maior será a nossa prepotência, onipotência e certeza de cura. Esta postura permitirá furtarmo-nos de sensações de insegurança, medo e ansiedade, frente àquilo que não sabemos. Tornamo-nos radicais e senhores da verdade.” Escreveu o doutor Garderer.

Já eu, que ainda não tinha lido o livro dele, escrevi no Vida de Autista: “Não há nada mais trágico no mundo que uma pessoa manter pensamentos de limitação sobre outro ser humano. Um pensamento de imperfeição, projetado sobre uma pessoa sensível, restringe algumas vezes essa pessoa. Durante muito tempo esses resultados são calamitosos. Aprendemos a dar a cada pessoa que nos cerca, em qualquer ocasião, sua completa liberdade mental.”

Dia desses estava conversando com uma amiga, mãe de autista. Entre veio de antes e vai de agora, eu dizia para ela que, devíamos cobrir nossas mágoas e rejeições sofridas com camadas e camadas de amor, tipo a pérola, já que há pouco tempo atrás nossos autistas, além de encapsulados, até comparados com ostra foram. Poucos se lembram disso e muitos preferem esquecer-se da comparação até por desconhecer a grandeza da analogia.

Com rezas, benzimentos, raiva, liminentos, doses homeopáticas, alopáticas, florais e chazinhos, broncas, dúvidas, discussões, tratos e contratos com “átras, istas, ólogos, eutas, e etc, etc... Suportamos as dores... Cansamos... Mas não desistimos.

Entendemos que ser autista, significa um verdadeiro recomeço para que o estágio terreno seja um tempo de paz e alegria no coração de quem o tem.

Vida de Autista ainda é um jovem livro, adolescente que além de edições contínuas, resiste catalogado nas livrarias. Foi premiado pelo Movimento Orgulho Autista Brasil, como livro destaque, o que enche de orgulho este pai/autor, sua família e o próprio personagem principal, que no seu singelo discernimento autístico demonstra o sentimento da emoção ao saber do ocorrido, embora a resistência de alguns setores profissionais continuem teimando pela limitação sentimental mental do seu semelhante, autista ou não.

A atualidade do livro Vida de Autista é tão impressionante quanto os livros do doutor Gauderer.

Nada mudou no front, como diz minha amiga, ou nada se deseja que mude no front.

Nessas ocasiões costumamos repetir que continuaremos iguais ao passarinho, de gota em gota tentando apagar o incêndio da floresta fazendo a nossa parte.

Ficando feliz com todos aqueles que fizeram e fazem parte do nosso universo autista, e quem mais chegar, saboreando nos lábios mais uma lágrima doce.

Autismo Quebrando Preconceitos

Com iniciativas destinadas a pessoas com autismo, cuidadores, das áreas profissionais, técnicas e afins, estudantes, instituições de ensino e universidades, foram promovidas inúmeras ações para celebrar o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, instituído pela ONU em dezembro de 2007.

Na Europa, embora recém-nascido, o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, teve intensa mobilização, como por exemplo, em Portugal, França e Alemanha, Suécia e Inglaterra, onde federações e associações afins promoveram encontros para os interessados, inclusive patrocinados por iniciativas oficiais e privadas interessadas na área.

É preciso destacar que a voz de milhões de incompreendidos autistas foram ouvidas nesse dia histórico que culminou com a mensagem universal proferida pelo Papa, instando todas as comunidades religiosas e ativistas, a fazer mais pelo autismo em todo o mundo, mesmo que a crise global se aprofunde, e que o Vaticano forneça orientações sobre o modo como as igrejas devem se relacionar com as crianças e adultos deficientes.

E mais...

O presidente dos EUA, em carta divulgada pela Casa Branca, determinou o desenvolvimento de um plano no âmbito da saúde, com o objetivo de garantir a acessibilidade de pessoas com deficiência, oportunidade de emprego, luta contra a discriminação, inclusão de alunos com necessidades educativas especiais, dedicando um capítulo específico para atenção de pessoas com autismo.

Enquanto isso no Brasil...

O presidente da República não pronunciou sequer uma palavra em favor do Dia Mundial da Conscientização sobre o Autismo e no Dia Internacional do Deficiente para que principalmente organismos governamentais pudessem se conscientizar, comprometer-se e fazer com que programas de ação conseguissem modificar as circunstâncias de vida dos portadores de necessidades especiais no Brasil, como está acontecendo em todo o mundo.

É compreensível, pois se perguntado sobre tema provavelmente responderá que nada sabia.

O Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo ainda não entrou para calendário oficial.

O ministro continua preocupado com a agenda abortista do Ministério da Saúde, até patrocinando documentário com depoimentos favoráveis à legalização do aborto e mais preocupado ainda, em manter a portaria que impede o repasse de verbas para consolidação dos serviços necessários para o atendimento dos deficientes, autistas ou não.

Numa abordagem dinâmica, manifestações populares celebraram e atraíram a atenção das autoridades para promoverem ações de cuidados à tragédia da síndrome, com fatos de real grandeza como o ensejado pelo Movimento Orgulho Autista Brasil, premiando empreendedores e abnegados no sentido de sensibilizar parlamentares e autoridades governamentais, no encaminhamento de leis e projetos que possam viabilizar melhores condições de vida para o autista.

Embora hoje já possamos agradecer um pouco do que já foi conseguido de leis, decretos e benefícios já em favor do autista, pelo esforço de deputados, senadores e abnegados, embora com inexplicável resistência de parlamentares e até de governador para o seu cumprimento, o autismo inspira e entusiasma, pois motiva para com eles aprender.

Nenhuma forma de quebrar preconceitos é melhor do que tentar entender o autismo, conhecendo autistas e aqueles que os cuidam.

Isso já está acontecendo, mesmo que embrionariamente.

É necessário desfazer a imagem de que o autista ensimesmado é uma tese, pois uma tese só se defende quando se revela sua existência, defendendo seu ritmo, que muitos imaginam não ser possível.

Os avanços na discussão sobre o autismo dependem de pequenas ações particulares.

Podemos repetir a manchete de um jornal que disse: “Só ONGs se lembram dos autistas.”

Ainda que tardiamente, nossos governantes também podem lembrar.

Ainda há tempo e não dói

Retomada - Cotidiano da Esperança

    Só para lembrar, ou não esquecer, estou retornando a esta minha tarefa, depois de tantas surpresas que a vida nos oferece todos os dias, algumas agradáveis e outras não, que aceitas, me forçaram alongar a volta dos meus amadores escritos aqui, embora desejando escrever todos os dias.

    Sabemos que nem tudo o que nos acontece na vida é definitivo, não importa a dimensão em que estejamos principalmente se estivermos ofertando sentimentos de compreensão para ela, como amoroso exercício do nosso coração.
    Educar, por exemplo, é um exercício que traz compensação benéfica imediata para aquele que ensina e muito mais para aquele que aprende.
    O resultado desse trabalho surge justamente naqueles que estão abertos ao conhecimento por se descobrirem úteis.
    Como seres em constante evolução, ninguém tem obrigação de saber o que se passa na minha cabeça, ou o quanto já estudei para chegar ao nível de conhecimento em que estou.
    O surpreendente mesmo é descobrir a toda hora o “só sei que nada sei”, aprendendo junto para depois da somatória, fazer a divisão para se chegar a um denominador comum, pois o tempo cruel já me fez compreender que não devo adiar compromissos.
    Há muito tempo já estávamos com a cultura cristalizada de que o ano só começava depois do carnaval, isto é: lá pelos idos de março, segundo os romanos.
    Como o Brasil é também o país do imponderável, as leis canônicas fizeram com que ele acontecesse nos primeiros dias de fevereiro, surpreendendo a todos, mas, proporcionando a grata surpresa de que ninguém morre por trabalhar alguns dias das folgas que o calendário antecipou.
    O país começou a trabalhar antes.
    Cobranças de parte a parte, o governo continua com suas explicações inócuas sobre o que não ia fazer de ruim, mas fez. A manutenção da dependência assistencialista oficial para milhões de brasileiros que podem trabalhar deve continuar, aumentando a relação de dependência, que no amanhã deverá cobrar a altos preços a retórica ilusória.
    A competição política está ganhando cada vez mais vulto, pois não tolera traições, nem esquecimentos e no tempo certo realçará seus defeitos, correndo riscos de que não haja diálogos fortes que assumam uma postura de tolerância prejudicando a todos.
    O ano começa com um imenso déficit de amor.
    As relações entre pessoas se apresentam cada vez mais difíceis. Pode ser necessidade de enquadramento de um que sempre esteve ao lado do outro, mas ainda não satisfez seu desejo, ou não aprendeu o que é carinho ou afetividade.
    Por mais que se queira mostrar uma imagem diferenciada, as pessoas reprimem a arte da convivência que só aumenta os desafios acentuando os desníveis existenciais com reais diferenças.
    Tudo é indefinição.
    Esquecemos que somos almas afins nos degraus evolutivos. Confiamos nos outros, mas com restrições sem que haja um espaço em que prevaleça o coração.
    Ora veja meu caro leitor ou cara leitora, você deve estar se perguntando com que compromisso que eu voltei? O que será que eu estou querendo dizer?
    Quero dizer que em mais este ano o esforço deve ser de cada um, mesmo sabendo da existência de uma imensidade de grupos que podem ajudar a iluminar os caminhos, mas, além de serem poucos não sabem ainda a magnitude da obrigação que assumiram e a luz que tem.
    O Juiz Maior fala do princípio da diferença entre o velho e o novo, entre o forte e o fraco, mas nós ainda não entendemos que devemos habilitar estas pessoas para enfrentar os desafios que o país e a vida oferecem sem que tragam constrangimento para alguém.
    Só Ele sabe o que nos reserva o dia de amanhã.
    Cabe a nós tolerar e superar as diferenças que tendem a ser superlativas, quando intelectuais ou financeiras, por falta de atenção as cobranças naturais que ocorrem em detrimento ao amor que se solidifica nas afinidades e igualdade entre pessoas.
    Feliz 2010.