Esta é a primeira vez que o tema Autismo está sendo
abordado em uma obra de ficção, no horário nobre da principal emissora de
televisão do país. Muitas famílias questionaram o porquê da personagem ser
adulta e não criança. Em uma análise inicial, também estranhei o fato.
Entretanto, refleti a respeito e percebi que existe
aí uma ótima oportunidade de começarmos a resgatar do limbo os milhares de
autistas adultos que existem em nosso país.
Sempre que escutamos falar sobre Autismo, nas raras
ocasiões em que a mídia – seja escrita ou televisiva – retrata, o foco abordado
é sempre a criança autista. É como se a Síndrome “desaparecesse” na vida
adulta!
Infelizmente, todos nós sabemos que não acontece
desta forma. Crianças autistas crescem rapidamente, na mesma velocidade que as
crianças neurotipicas. E, muito em breve, chegarão à vida adulta engrossando o
contingente enorme de autistas adultos.
Se é notória a escassez de políticas públicas para
as crianças com TEA, o que dizer então dos adultos portadores de TEA?
Penso que a novela, ainda que de forma tímida,
poderá contribuir para que possamos abrir a discussão acerca do tema e
lançarmos luz à questão.
É a oportunidade de mostrarmos à sociedade que o
Autismo está muito mais próximo de cada um de nós do que possamos imaginar e
que existem crianças e ADULTOS com autismo e que ambos precisam de políticas
públicas inclusivas, para terem seus direitos assegurados, direitos estes que a
Lei Federal 12.764 já estabeleceu mas que, infelizmente, ainda não foram
vivenciados na prática.
Devo admitir que apesar de todos os avanços que
tivemos nos dois últimos anos, estes avanços não representam nem constituem 10%
da real necessidade dos autistas brasileiros. Estamos muito longe do ideal!
Muito ainda PRECISA e DEVE ser feito! E a dívida que a sociedade civil
organizada e o governo têm com os adultos com TEA é, sem sombra de dúvida,
enorme! Se hoje em dia a falta de informação ainda é bastante relevante e
significativa, imaginem qual era o panorama há 20, 25, 30 anos atrás!
Tive a oportunidade de conhecer uma família que
precisou vender o imóvel em que residia para viajar ao exterior em busca de um
diagnóstico para o “mal desconhecido” que se abateu sobre seu filho, há 25
anos. Outras famílias peregrinaram anos e até mesmo uma década inteira sem
conseguir descobrir a razão do comportamento “esquisito” de seus meninos e
meninas.
Em outra ocasião conheci uma mãe que me contou sua
experiência desastrosa (para falar o mínimo!) e sua via crúcis para conseguir o
diagnóstico de seu filho. Quando ela, assustada, questionou o médico sobre o
que era o Autismo, ouviu dele a seguinte resposta: “Nem mesmo Deus sabe!!!”
Retornando à sua casa, esta mãe chorou por todo o
fim de semana e quando voltou ao consultório do profissional relatou como se sentia
e o quanto havia chorado. Novamente este médico saiu com uma frase que retrata
muito bem a falta de sensibilidade que alguns profissionais infelizmente ainda
possuem: “Guarde suas lágrimas, mãe, porque você ainda tem muito o que chorar a
sua vida toda.”
Essa história me foi relatada em meio a lágrimas
silenciosas e soluços entrecortados . Este episódio marcou de tal forma a alma
desta mãe que, mesmo muitos anos depois, a dor pungente daquele momento volta a
afligir seu coração, quando ela relembra este evento.
Fico pensando então em minha dor e nas limitações de
meu filho e percebo que NÃO há comparações entre as nossas dificuldades e as
intempéries que as mães de autistas adultos e seus filhos viveram no passado (e
ainda vivem!).
O que terá “restado” emocionalmente destas famílias?
O quanto sofreram caladas, sozinhas, verdadeiramente
desamparadas, vendo seus filhos e filhas sendo condenados a uma vida de
exclusão, vivendo à margem da sociedade, sociedade esta PRECONCEITUOSA,
sociedade esta que FALHOU e MUITO com nossos autistas adultos e seus
familiares, pois além de ter que conviver e SOBREVIVER ao preconceito, estas
pessoas ainda precisaram lidar com o desconhecimento da síndrome por parte da
Medicina, que ainda engatinhava em suas descobertas a respeito do transtorno,
pois somente de alguns anos para cá os cientistas começaram a se interessar
pelo assunto e os países ( do Primeiro Mundo , que fique bem claro!) resolveram
investir em pesquisas que pudessem propiciar melhor qualidade de vida à seus
portadores.
Assim sendo, gostaria de deixar meu carinho maior e
meu RESPEITO e ADMIRAÇÃO a todas as mães de autistas adultos, pois imagino o
quanto sofreram e ainda sofrem e por
NUNCA terem desistido de seus meninos e meninas.
Deixo também o meu profundo AGRADECIMENTO, pois se
hoje existe um caminho, ainda que tortuoso, para que eu possa conduzir meu
filho, este caminho existe graças a estas mães, verdadeiras desbravadoras,
pioneiras, que abriram trilhas, caindo e levantando, errando e acertando, sem
jamais esmorecer. Abriram caminhos usando a única “arma” que possuíam (e a mais
poderosa de todas): seu AMOR!!!
Enfrentaram de peito aberto as maiores tsunamis e
como náufragas deste mar de desconhecimento e preconceito, retiraram forças de
seus corpos alquebrados e enfraquecidos e seguiram em frente, levando em seus
braços sua maior riqueza e tesouro: seus filhos autistas. Como não dever a
estas mães?
É fato que o tempo perdido não volta atrás, mas
ainda há tempo para que a sociedade e seus governantes tomem providências que
visem beneficiar nossos adultos, investindo em sua autonomia, nas chamadas AVDs (atividades da vida diária),
oferecendo oportunidades de inseri-los no mercado de trabalho e oferecendo
inclusão escolar especializada para aqueles que dela necessitam.
A moradia assistida ou lar terapêutico é outra
necessidade premente para os autistas que, porventura, não tiverem adquirido
independência para viver sozinhos após a partida de seus pais. Torno a
enfatizar: estas necessidades NÃO são um favor! São direitos adquiridos e que
precisam ser respeitados e garantidos. É o mínimo que podemos fazer para tentar
amenizar um pouco a enorme e vergonhosa dívida que temos com os autistas
adultos e seus familiares.
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