segunda-feira, 19 de maio de 2014

Desafio: o autista na sala de aula regular

A diretriz governamental de incluir o autismo no sistema de ensino esbarra no 
despreparo e desconhecimento
Para especialistas, o autismo requer atuação individualizada
As recentes diretrizes para educação especial no País têm ratificado o caminho da alfabetização do aluno autista na sala de aula de ensino regular, desafio que multiplica a relação professor-aluno-portador de transtorno no já fragmentado e deficiente sistema educacional do País. O desafio não é somente de natureza pedagógica, mas tem raízes humanas e psicossociais.
Para especialistas, educadores e profissionais que lidam com o autismo e a alfabetização em Bauru, os diferentes níveis de autismo podem permitir, com exceção para os casos severos, evolução nos processos de aprendizagem. Contudo, o despreparo, a ausência de conscientização e compreensão sobre o mundo particular do autista, aliado às carências das escolas, põem em risco o futuro dos portadores do distúrbio sem cura.           
A consequência da diretriz é a crescente redução da participação de instituições especializadas no trato com pacientes do segmento, como a Apae Bauru. Para especialistas da entidade, o autista apresenta déficits e excessos comportamentais que exigem atuação individualizada, específica, abordagens dificilmente alcançadas no cotidiano do ensino regular.   
Incluir ou não a criança autista na escola regular é uma decisão que merece muitos debates, aponta o estudo que se debruçou sobre a integração do autista exatamente na chamada “escola comum”, de autoria das pedagogas Marilene de Oliveira Milagre e Wagna da Silva Souza. O trabalho, de 2011, foi de conclusão do programa de graduação em pedagogia da Escola Superior de Ensino Anísio Teixeira.
No estudo, elas definem: “o indivíduo autista, não abraça, não pede colo, nem proteção quando se magoa, evita manter o contato físico e visual e permanece indiferente das pessoas que o cercam”.
Porém, este mesmo cidadão com síndrome sem cura pode dar respostas excepcionais para o desenvolvimento e o aprendizado. “O autista não deve ser visto como alguém que não aprende, mas sim, como uma pessoa que têm formas diferentes para alcançar este aprendizado”, conclui o estudo.
Outro desafio da escola regular na inclusão de autistas é a heterogeneidade dos pacientes e de suas necessidades e competências. Cada caso exige adequação específica e muito concreta das estratégias e objetivos de tratamento. Os objetivos e procedimentos terapêuticos e educacionais são variáveis e singulares, o que também depreende comprometimento da pessoa, nas suas diferentes dimensões.
“As escolas ainda não estão preparadas para receber esses alunos nos níveis de suas necessidades especiais, porque lhes falta adaptação curricular, reformulação de critérios de avaliação e outras estratégias para desempenhar de forma favorável estes indivíduos”, resume o estudo de graduação.
Enquanto a orientação governamental é pela inclusão do autista no ensino regular, a resistência dos pais em aceitar o distúrbio e a demora no diagnóstico médico para o enfrentamento dos casos trazem prejuízos ao portador.
De outro lado, a fragilidade na compreensão do quadro e os ruídos no relacionamento entre escola e pais geram litígios. Em Bauru, o caso do adolescente Pedro Paullo de Castro, ainda está pendente no Judiciário.
O pai, Paulo de Castro Moreira, reclama no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ) consequência ao colégio particular que expulsou Pedro da unidade após ocorrência de agressão a dois professores pelo garoto que sofre da Síndrome de Asperger (onde o autismo se apresenta em geral com crianças com bom nível de inteligência).   
Sem receita pronta, a inclusão é individual
Luci de Paula realiza atendimento especializado em educação especial pela Apae. Para a profissional formada em fonoaudiologia é preciso considerar três elementos para dar suporte adequado ao autista: a alteração de comportamento, a linguagem e a interação social.
Mas a profissional adverte: “não existe receita pronta. Cada abordagem tem de ser individual, com cada indivíduo e de forma detalhada”. Para tanto, a orientadora da Apae considera que a tríade da ação pelo autismo exige equipe multidisciplinar.
Sobre a possibilidade de inclusão do portador do transtorno na escola regular, ela posiciona: “O autismo severo é de difícil condução inclusive no sistema especializado, realidade muito distante da escola regular”.
A secretária de Educação, Vera Casério, reconhece a especificidade. “Em alguns casos a Apae chega a ter um professor especialista para um único aluno em uma sala”, diz.
De outro lado, Luci sentencia que o autista é capaz de aprender. “O ensino regular exige capacitar o profissional para que ele considere o universo das diferenças para o autista e a capacidade de identificação da forma como o autista compreende e vê o mundo à sua volta. Sem compreender a linguagem do autismo a relação não avança”.
Por essa razão, a especialista acrescenta que “em uma sala de aula com 40 alunos o estímulo específico e individual do autista não é possível de ser realizado na plenitude. É preciso o atendimento individual, uma realidade muito distante das escolas”.
Assim, Luci considera que a inclusão escolar do autista deve levar em conta o grau da síndrome, as diferentes estratégias para atuação com cada caso e a percepção, pelos pais, de que o caminho no desenvolvimento de seu filho é longo e permanente. “A resistência dos pais em aceitar a síndrome tem gerado muitos prejuízos, pelo retardo no início das abordagens”, finaliza.      
Expulsão de adolescente revolta pai
Paulo de Castro Moreira não se conforma com a expulsão do adolescente Pedro Paullo de Castro por um colégio particular de Bauru, no ano passado.
Segundo o processo apresentado pelo pai ao JC, com ação em tramitação no Tribunal de Justiça (TJ), Pedro não apresentou dificuldades no desenvolvimento até a sexta série. Na sétima série, entretanto, em razão de uma sequência de desentendimentos e de reações do garoto no relacionamento em sala de aula, o garoto foi expulso após agressão a dois professores.
O pai contesta, diz que houve despreparo da unidade e negligência na condução das mudanças de rotina no ano passado e quer punição do estabelecimento pela expulsão sumária e, também, pela perda do ano letivo do menino.
Após o caso ser discutido no Ministério Público local, Pedro conseguiu se matricular em uma unidade da rede pública local (escola Santa Maria). “Ele está indo muito bem lá, se desenvolvendo muito bem. Ele é muito inteligente e começou a contestar a realização de tarefas que já sabia. E quem lidou com ele na escola ignorou esses sinais. Fui várias vezes à escola discutir isso. A agressão é produto de uma série de erros e a expulsão injusta e prejudicial a meu filho”, protesta o pai, que também foi professor e deu aula para aluno autista.
Pedro tem diagnóstico da Síndrome de Asperger, considerada moderada e que não interfere em níveis de inteligência. Ao contrário, o portador desse tipo de transtorno tende a ter inteligência acima da média. O craque Leonel Messi, jogador argentino que atua pelo Barcelona da Espanha, tem o mesmo diagnóstico que o garoto Pedro.
“O autista não agride, mas responde de forma severa, dura, se sua rotina for modificada sem explicação. O autista tem opinião própria e não arreda o pé. O Pedro é excelente para interpretar textos e é bom de matemática. Bastou ser ignorado por uma professora e reagido a mudanças de rotina que a escola se omitiu e o expulsou, ao invés de solucionar o caso”, completa o pai. O colégio foi contatado, mas não quis falar a respeito do caso que encontra-se no TJ atualmente.


FONTE:
Nélson Gonçalves
JCNet.com.br

http://www.jcnet.com.br/Geral/2014/05/desafio-o-autista-na-sala-de-aula-regular.html

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